O Gnosticismo e seus duelos teológicos contra o Cristianismo

O Gnosticismo e seus duelos teológicos contra o Cristianismo

Por Frater M.F

Nos últimos anos, o interesse pelo gnosticismo cresceu bastante no Esoterismo mundial (e consequentemente no Brasil). Muitas são as Ordens iniciáticas que carregam o termo “gnóstico” em seus nomes (para dar um “charme” a mais em seus títulos), assim como as “fraternidades” que afirmam celebrar “missas gnósticas” ou ter “ações gnósticas” em seu rol de atividades iniciáticas.

Nesse novo interesse do Esoterismo Moderno pelo gnosticismo (iniciado no século 19), o próprio uso do termo “gnóstico” virou uma espécie de “título de nobreza espiritual”, algo semelhante ao que já é feito com o termo “rosacruz”. Nesse caso, ser “gnóstico” ou ser “rosacruz” se tornou sinônimo de “seriedade espiritual” ou de “confiabilidade” (quando se tratam de instituições iniciáticas). Talvez por isso, tantas Ordens se classifiquem como “gnósticas” ou “rosacruzes”. Mas a dúvida ainda persiste sobre a maioria dos curiosos que decidem pesquisar o Gnosticismo e suas características: afinal de contas, vale a pena estudar o Gnosticismo? Em que consiste a filosofia gnóstica? Trata-se de alguma religião? Linhagem mágica? Vertente iniciática (ou simplesmente mística)? O Gnosticismo é cristão?

A resposta a todas essas perguntas é trabalhosa: o Gnosticismo é apresentado na espiritualidade moderna como “tudo isso e algo mais”. Porém, o fato de ser valorizado no Esoterismo Moderno, não o torna necessariamente algo “bom” ou “confiável” (ao menos não da forma como a modernidade o interpreta).

A definição de Gnosticismo é muito ampla (e às vezes confusa), pois abrange conceitos não apenas espirituais, mas também filosóficos, sociais e culturais. Por isso, antes de dizermos exatamente o que é o Gnosticismo, precisamos definir primeiro o que significa o termo “gnose”, para que possamos compreender em que se sustenta o Gnosticismo, como fenômeno cultural e espiritual.

O que é “gnose”?

A palavra “gnose” (ou gnosis, no idioma grego) é um tipo de saber herético muito difundido na antiguidade, que sustenta toda a estrutura espiritual e filosófica do Gnosticismo. Traduzido do grego (de forma muito simples) o termo “gnosis” significa simplesmente “conhecimento”. Esse conhecimento é diferente do conhecimento intelectual e acadêmico; trata-se aqui de um saber espiritual, intuitivo, adquirido de forma puramente espiritual através de “experiência direta”, e não através de meios mundanos (como a leitura, por exemplo).

Como se vê, o significado do termo gnosis, apesar de não se referir a algo necessariamente herético, termina gerando uma interpretação herética da forma como o conhecimento espiritual é abordado pelo Gnosticismo. Se analisarmos bem a etimologia da palavra gnosis, veremos que a experiência espiritual de todo cristão o leva, de certa maneira, a buscar uma experiência pessoal (gnose) de comprovação da existência de Deus. Todavia, essa experiência pessoal não necessariamente é obtida de maneira “individual”, visto que o Cristianismo não é uma religião exclusivista, que defende uma “superioridade espiritual” de seus adeptos, mas sim uma religião que apresenta a palavra de Cristo ao alcance de todos, independente de sua etnia, cultura ou mesmo história de vida (AQUINO, 2001).

O gnóstico é alguém que procura sua “salvação espiritual” através de alguma experiência espiritual objetiva, direta, e se possível, sem a ação de intermediários. Isso dá ao Gnosticismo uma abordagem essencialmente egoísta da salvação, transformando a espiritualidade universal do Cristianismo numa espécie de “espiritualidade elitista”. Como essa experiência é individual (não pode ser coletiva) e intransferível (não pode ser simplesmente “compartilhada” ou “dada” à outra pessoa), do ponto de vista gnóstico o ser humano não poderia entender a divindade através de relatos de terceiros. Segundo Pagels (apud Holler, 2005), a gnosis “pode ser traduzida como insight, pois gnose envolve um processo intuitivo que abarca tanto o conhecimento de si próprio como o conhecimento das realidades últimas, divinas”. (PAGELS apud HOELLER, 2005, p.16). Isso faz com que o Gnosticismo simplesmente adquira um caráter confuso, uma vez que defende posturas espirituais individualizantes e até certo ponto egoístas, justificando essas posturas na pretensa busca de uma revelação divina que não pode ser compartilhada e nem mesmo obtida de forma coletiva.

No Gnosticismo, a busca pelo conhecimento divino não pode ser feita sob uma ilusão, pois isso não conduz o homem ao contato com a divindade. A busca pela Gnose é algo totalmente pessoal, intransferível e direta (sem a ação de terceiros), já que não podem existir intermediários entre Deus e o homem.

Para os adeptos do Gnosticismo, a “gnose” pessoal não pode ser simplesmente inventada: ela tem de ser uma experiência “autêntica” e “descentralizada”. Apesar de ser uma experiência individual e intransferível, o gnóstico não pode simplesmente inventar experiências místicas sem realmente as ter obtido, pois dessa forma ele não irá obter o conhecimento que deseja: o conhecimento sobre o “verdadeiro deus”. Do ponto de vista gnóstico, a “verdadeira divindade” não pertence a esse mundo, e por isso o conhecimento sobre ela também não está presente aqui. Dessa forma, para os gnósticos, a experiência gnóstica não seria uma experiência simplesmente “mística”, pois para eles, a Fé por si só não pode oferecer a “gnose” (conhecimento) que o buscador procura, já que esse conhecimento não pode ser obtido nesse mundo. E é aqui que Gnosticismo e Cristianismo passam a se chocar diretamente.

O gnóstico defende uma ideia de “fé racionalizada”: para ele, é preciso ter Fé no “verdadeiro deus”, sabendo que essa divindade e o conhecimento a respeito dela não estão presentes neste mundo. Diferentemente do Cristianismo (que defende a ideia de que a Fé é um dos motores de toda ação espiritual, e de que Deus-Pai, que é Todo-Poderoso, compadece-se do sofrimento do ser humano), o Gnosticismo propõe a seus adeptos uma “fé” fria e insensível (tão insensível quanto seu conceito sobre a vida, a existência, a natureza e sobre a própria divindade). Para os gnósticos, ter “fé” é simplesmente tomar consciência de que nada neste mundo “salva”, e que tudo que provém dele (até as boas intenções) são vãs e inúteis.

De certa forma, o pensamento gnóstico não está de todo errado (pelo menos, não no que diz respeito à natureza do mundo físico): nada neste mundo é feito para durar ou permanecer. A existência no mundo físico é sempre sujeita a impermanência e imperfeição: tudo que se manifesta neste plano, está sujeito ao ciclo de “nascer-crescer-definhar”. Esse é mais um dos motivos para que o ser humano se conscientize de que a estadia neste mundo deve ser orientada à busca por Deus e sua sabedoria, e por isso mesmo Jesus Cristo disse, em seu célebre sermão da montanha,que o homem não deveria “juntar tesouros nesse mundo, onde as traças o comem e a ferrugem tira seu brilho”.

Porém, o que é um fato quase incontestável, passa a ser visto pelo Gnosticismo como uma verdade “dúbia”: ainda que o mundo seja impermanente e imperfeito, ele é parte da Criação, e seu estado decaído não provém da Vontade de Deus (que é Eterno e Onipotente), mas sim da queda primordial do homem celeste, que com a ferida do pecado corrompeu a Criação e a transformou na imperfeição que ela é agora.

Se aproveitando dessa imperfeição do mundo e da Criação (mas ignorando o fato de que essa imperfeição provém da queda do ser humano de seu estado divino), o Gnosticismo vende sua visão fria do conceito de “Fé”, e seu pessimismo e melancolia a respeito da vida. Isso faz da filosofia gnóstica uma heresia confusa, mas mascarada com ideais espirituais aparentemente “profundos” (cheios de conceitos que misturam verdades a deturpações e críticas pessimistas), meramente sincretizados sem critérios definidos. Isso faz do Gnosticismo uma heresia, já que as heresias são corruptelas da verdade, tomadas como interpretações egoístas e cuja conclusão não foi refletida coletivamente (AQUINO, 2001).

Para os gnósticos, por viverem em um mundo imperfeito e maléfico, sua “fé” devia se resumir a tomar consciência da imperfeição deste mundo e buscar se “libertarem” dele (renunciando a vida). Assim, a “fé gnóstica” não poderia ser simplesmente “passiva”, pois não poderia nutrir esperanças por nada que fosse minimamente proveniente deste plano de existência. Assim, a busca pela “gnose” envolveria “ação” (para se libertar”) e busca de experiências espirituais diretas, já que, segundo Hoeller (2005):

A fé é um caminho bem diferente do conhecimento. […] Um certo tipo de fé (pistis) é reconhecido como válido no Gnosticismo, mas a fé na própria experiência, uma lealdade duradoura sentida em relação à sua experiência de conhecimento interior e libertador. (HOELLER, 2005, p.20).

Agora que entendemos um pouco do que significa o termo “gnose” para o Gnosticismo, e como a interpretação deste termo faz o Gnosticismo se chocar diretamente contra o Cristianismo (uma vez que interpreta a “fé” como algo egoísta e melancólica, se opondo à vida), podemos tentar entender o que é o Gnosticismo propriamente dito, como ele se manifestou no mundo antigo, que tipos de relações manteve com outras grandes religiões (especialmente o Cristianismo) e quais suas demais características.

O Gnosticismo como movimento espiritual e filosófico

“Gnosticismo” é o nome dado a um conjunto de filosofias, seitas, comunidades e grupos que adotaram a busca pela “gnose” como base de suas práticas espirituais, durante os séculos I, II e III. É preciso deixar claro (a partir da análise anterior que fizemos do termo “gnose”), que o Gnosticismo não é cristão, apesar de muitos gnósticos se autodenominarem (estrategicamente!) ao longo da história de “verdadeiros cristãos”.

É fato que historicamente, o Gnosticismo compartilhou ideais cristãos em seu sistema cosmológico (uma vez que ele foi, por si só, uma corrente filosófica/espiritual absolutamente sincrética, que misturou elementos de diversas religiões da antiguidade para conquistar uma popularidade maior e chamar a si um apelo social mais amplo). Porém, é preciso ressaltar que mesmo usando conceitos cristãos em sua cosmologia, a interpretação dada pelo Gnosticismo a esses conceitos era primordialmente diferente da interpretação dada pelo Cristianismo (incluindo a própria interpretação gnóstica das figuras de Jesus e da Virgem Maria).

A “aproximação” entre Gnosticismo e Cristianismo ocorreu após a abordagem gnóstica de correntes filosóficas da antiguidade que influenciaram diretamente a doutrina cristã (como o Neoplatonismo). Nesse sentido, podemos entender que as várias filosofias espirituais da antiguidade (e o Gnosticismo está incluso dentre elas) se influenciavam mutuamente, e emprestavam ou compartilhavam conceitos entre si. Todavia, nem sempre essas influências mútuas significavam necessariamente uma base comum dessas correntes espirituais; e é por isso que o Gnosticismo parece ter tantos “pontos em comum” com o Cristianismo.

As raízes conhecidas da origem do Gnosticismo vêm do Oriente Médio, mais precisamente da Pérsia, através dos ensinamentos do Zoroastrismo (seguidores de Zoroastro). O pensamento gnóstico persa originou duas escolas de pensamento: o Mandeísmo e o Maniqueísmo. Essas escolas gnósticas persas tinham pontos de vista separados da doutrina judaico-cristã, e por isso não acreditavam em nenhuma figura sagrada judaica, cristã ou muçulmana (Moisés, Jesus de Nazaré ou Maomé), apesar dos mandeístas guardarem admiração e respeito pela figura de João Batista. Para o Maniqueísmo, “Bem” e “Mal” eram conceitos que se equivaliam e estavam em eterna disputa pelo domínio da Criação, o que geraria uma dualidade extrema em praticamente todos os aspectos do plano físico. Por conta disso, o termo “maniqueísta” é usado ainda atualmente, para designar qualquer pessoa que tenha opiniões simples e divididas em pólos opostos e antagônicos.

Com o intercâmbio cultural entre os povos e sociedades da antiguidade nos séculos II e III, o pensamento gnóstico se espalhou por diversas culturas e chegou ao mundo grego, sírio e egípcio (sudeste europeu, região do Cáucaso e Palestina), onde diversas outras correntes filosóficas e espirituais já estavam presentes. Ali, o Gnosticismo encontrou terreno fértil para absorver todos os conceitos que julgasse propícios a sua “estabilização filosófica”, já que passou a tomar contato com religiões e correntes de pensamento já estabelecidas na região, o que influenciou diretamente seus próprios conceitos sobre o universo, a Criação e a própria divindade.

O intercâmbio cultural entre os povos da antiguidade fez com a que a filosofia gnóstica chegasse à Grécia, Egito e Palestina. Nesses locais, o Gnosticismo sofreu influência de diversas religiões e correntes filosóficas predominantes, criando várias vertentes gnósticas de acordo com as características espirituais e culturais de cada região.

Se pararmos novamente para refletir sobre a interpretação etimológica do termo “gnose”, veremos que a essência do Gnosticismo é justamente defender a experiência espiritual como algo necessariamente individual (do ponto de vista cristão, uma visão egoísta). para os gnósticos, o “conhecimento” da divindade só poderia ser obtido de forma direta, o que nos leva a concluir que todas as religiões estabelecidas (incluindo o Cristianismo) tem em si uma certa necessidade de promover uma “gnose” a seus adeptos (já que a Fé é usada como uma das chaves da salvação na maior parte das religiões formais). Todavia, apesar de ter esse “ponto em comum” com as demais religiões, o Gnosticismo é explicitamente elitista (mais elitista até que outras religiões já tidas como “elitistas”,por defenderem um conceito de salvação exclusivista), fazendo uma separação (até certo ponto grotesca) entre os adeptos da filosofia gnóstica (chamados de “perfeitos” em algumas comunidades) e aqueles não-adeptos.

Por ter essa característica comum às grandes religiões, o Gnosticismo rapidamente expandiu suas abordagens, encaixando interpretações de autores e características de outras correntes filosóficas e religiosas. Essa possibilidade de “encaixe” filosófico e espiritual fez com que o Gnosticismo rapidamente se “misturasse” com diversas religiões do Oriente Médio (guardando aspectos e crenças dessas religiões) ou variasse suas convicções filosóficas e espirituais, de acordo com as interpretações dos autores que escreviam sobre a experiência pessoal de “gnose”. Isso tornou (e ainda torna) o estudo do Gnosticismo confuso, já que era comum durante os primeiros séculos da era Cristã, muitas comunidades judaicas, cristãs, gregas ou sírias manifestarem uma forma própria de pensamento gnóstico. Também era frequente que algumas comunidades possuíssem uma religião formal estabelecida, mas usassem o Gnosticismo como “filosofia de suporte” ou como uma “maneira mais filosófica” de aplicar os conceitos de sua própria religião.

Isso fez com que diversas formas de Gnosticismo surgissem entre os séculos I, II e III, todas seguindo características comuns à religião da qual extraiam seus conceitos (ou do autor gnóstico que mais respeitavam). Foi o caso do Gnosticismo Setiano (mais próximo ao Judaísmo), o Gnosticismo Valentiniano (que seguia a visão de Valentim), ou o Gnosticismo Basilidiano (que seguia a visão de Basilides). Talvez esse tenha sido também o caso da relação “Gnosticismo & Cristianismo”: tratava-se na prática, de uma “miscigenação espiritual” causada por diversos fatores na antiguidade (falta de um corpo doutrinário claro e coeso por parte do Cristianismo; ignorância filosófica/espiritual dos membros das comunidades nas quais o Gnosticismo se infiltrava; comodidade e aparente semelhança de “doutrinas”, etc.).

Com uma aparente facilidade de “adaptar” conceitos de outras religiões (na verdade, “fagocitar” esses conceitos), e se assemelhando mais a uma “filosofia” que a uma “religião estabelecida”, foi fácil para o Gnosticismo absorver elementos de religiões distantes (e aparentemente até pouco cogitadas para sofrer algum tipo de sincretismo). Foi o caso também do sincretismo entre Gnosticismo e Hinduísmo, religião que também é descentralizada do ponto de vista do culto (há cultos específicos de adoração para cada divindade, assim como o Gnosticismo tem várias formas históricas de manifestação).

O Cristianismo é a religião que mais foi sincretizada com o Gnosticismo. Porém, apesar de terem fortes laços de proximidade, cristãos e gnósticos encaram certos símbolos e figuras de forma diferente.

O Gnosticismo é estrategicamente classificado pelos gnósticos da atualidade como “o verdadeiro Cristianismo”, ou como o “Cristianismo primitivo”. Essa é uma falácia relativamente simples de ser desconstruída, pelo simples fato de que, como vimos até agora, Cristianismo e Gnosticismo possuíram bases doutrinais e teológicas essencialmente diferentes em relação a Deus, à Criação e à forma como enxergam a vida. Como já vimos, a origem do Gnosticismo nem sempre teve ligação com a cultura Judaico-Cristã (como foi o caso das correntes gnósticas persas), mas essa classificação atual feitas pelos gnósticos é uma presunção levantada a partir do fato de que a grande interação entre cristãos e gnósticos foi grande (especialmente nos primeiros séculos de expansão do Cristianismo), e que até o século III a Igreja Católica de Roma ainda não estava estabelecida formalmente na Europa como instituição religiosa.

Para os gnósticos da atualidade, essa “interação” ocorrida entre cristãos e gnósticos foi uma experiência “riquíssima”, e praticamente “fundiu” (em sua visão) o Gnosticismo com o Cristianismo, dando origem ao que conhecemos atualmente como “Gnosticismo Cristão” ou “Cristianismo Gnóstico”, difundido por grandes “professores” gnósticos da antiguidade como Lêucio Carino, Valentim, Basilides e Marcião.

De fato, o nível de ignorância filosófica e religiosa das populações nas quais o Gnosticismo se infiltrava era tão grande, que isso facilitava a expansão da “filosofia gnóstica” no sudeste europeu: não havia um corpo dogmático cristão que diferenciasse a abordagem gnóstica do Cristianismo, e desmascarasse a estratégia de expansão e sincretismo da doutrina gnóstica. De acordo com Hoeller (2005), se algum habitante do sudeste asiático no século III fosse questionado se era “gnóstico” ou “cristão”, ele responderia “sou os dois”, ou simplesmente diria: “não sei o que é ser gnóstico, só pratico minha religião”.

O grau de confusão doutrinária foi tão grande entre Gnosticismo e Cristianismo nos século I e II, que até mesmo os “sacramentos” das iniciações gnósticas (nas comunidades e grupos onde o Gnosticismo era adotado como religião) eram muito próximos dos Sacramentos cristãos (alguns idênticos como Batismo, Crisma e Eucaristia). Essa similitude interessava ao Gnosticismo: para a filosofia gnóstica, era mais fácil expandir-se de forma “mutualista” (aproveitando a popularidade de religiões já estabelecidas) que propor um corpo novo de ensinamentos. Assim, até mesmo muitos dos livros sagrados gnósticos eram comumente chamados de “evangelhos”. Isto é comprovado nos próprios duelos teológicos que São Paulo teve no sudeste europeu, quando enfrentou “mestres gnósticos” nas comunidades que visitou durante a expansão da mensagem cristã para fora da Palestina (isso está registrado nas famosas Cartas Paulinas do Novo Testamento).

De acordo com Hoeller (2005) o objetivo dos sacramentos gnósticos era essencialmente diferente dos objetivos dos sacramentos cristãos (especialmente dos sacramentos Católicos). Isso deixa claro como o Gnosticismo interpretava de maneira diferente (e até distorcida, por conta de sua visão pessimista da Criação e da vida) os Sacramentos cristãos, uma vez que:

O objetivo de um sacramento gnóstico não é uma mera santificação temporária, como na doutrina católica romana da graça sacramental, mas uma transformação total, uma mudança na essência da divindade. O gnóstico perfeito não é um seguidor de Cristo, mas um ser humano deificado (transformado em divindade); ele é um outro Cristo. (HOELLER, 2005, p. 93. Grifo nosso).

Vemos nas palavras de Hoeller, que os “sacramentos” gnósticos (adotados pelas comunidades nas quais o Gnosticismo era adotado como religião) beiravam a mistura de presunção e soberba espiritual: para os gnósticos “perfeitos” (iniciados), não era Cristo quem deveria ser adorado ou buscado, mas sim a “deificação” do ser humano através da “libertação das amarras do mundo” (rejeição à natureza e a tudo que fosse relacionado à Criação, que também foi concebida com a participação do próprio Cristo!). Isso faz das ações espirituais do Gnosticismo, além de heréticas, também blasfemadoras, já que contrariam a natureza de Cristo como co-criador do mundo, além de defenderem uma espiritualidade humanista, egoísta e centrada unicamente na “libertação” do ser humano, e não na glorificação de Deus, que é Eterno e Onipotente (AGOSTINHO, 1996).

Apesar de ter um “intercâmbio” (apropriação de conceitos) fortíssimo com o Cristianismo, o Gnosticismo nunca teve uma teologia organizada e sistemática como a teologia cristã. Os próprios gnósticos da antiguidade não se preocupavam em organizar seus conhecimentos, leituras, práticas ou sacramentos de forma a estruturar uma Liturgia. Isso acontecia porque os gnósticos interpretavam a Liturgia cristã como “proveniente deste mundo”: um mero instrumento de adoração às imperfeições deste mundo (já que utilizava ferramentas deste plano, como instrumentos, parafernálias, etc), que “prenderiam” mais ainda o homem às “amarras” da Criação.

Os gnósticos pensavam que a organização teológica e litúrgica não conduziria à “gnose” pessoal (já que seriam estudos apenas especulativos e intelectuais ligado ao mundo físico). Por isso, por mais que os gnósticos da atualidade considerem o Gnosticismo como “o verdadeiro Cristianismo” (ou como uma espécie de “Cristianismo primitivo”), suas “semelhanças” com o Cristianismo (como no caso dos Sacramentos cristãos) guardam também diferenças enormes, que desmascaram essa pretensa “base comum” que os gnósticos querem defender. A ritualística gnóstica era pobre liturgicamente, e estava sempre preocupada com a libertação do plano físico…ao passo que para o Cristianismo, a Liturgia é algo divino, transmitido pelo próprio Cristo em pessoa como forma de render adoração a Deus-Pai (AGOSTINHO, 1996).

O Gnosticismo como inimigo do Cristianismo e da Igreja Católica Romana

O Gnosticismo é essencialmente uma doutrina espiritual e filosófica dualista, que defende a existência de 2 planos de existência diferenciados: um plano material, físico (onde o ser humano habita, “preso” em sua ignorância), e um plano divino, totalmente espiritual, que está além do universo e de tudo que se conhece na Criação (onde habita a “verdadeira divindade”, benevolente e misericordiosa). Para os gnósticos, o mundo físico e a Criação são controlados por uma “divindade menor”, enganadora, maléfica e aprisionadora (chamada comumente de “Demiurgo”), que mantém o ser humano “preso” à sua Criação e à sua própria ignorância. Assim, para os gnósticos, cabe ao homem procurar obter o conhecimento direto do “verdadeiro deus” e se “libertar” de sua ignorância, para assim, quebrar as “algemas espirituais” do Demiurgo.

Na foto acima, o “Demiurgo” gnóstico. Para os gnósticos, o Demiurgo era uma semi-divindade iludida, responsável por toda a criação visível, procurando prender o ser humano no plano físico. Por conta disso, essa divindade é conhecida como “Demiurgo” (que significa “meio construtor”), simbolizando sua própria imperfeição.

Quando se fala em Gnosticismo, é importante deixar claro a você leitor, que a palavra-chave dessa corrente espiritual é desprendimento. O gnóstico tem em mente que o “verdadeiro deus” não pertence a este mundo, e que nada que existe neste mundo tem ligação com a “verdade” gnóstica. Este mundo é obra de uma divindade menor, limitada e iludida. Essa divindade menor seria a responsável pela criação do mundo físico, pela manutenção desse mundo e pelo sofrimento que o homem passa nesse plano de existência. Assim, a verdadeira missão do gnóstico é única e exclusivamente se “libertar” de seus sofrimentos físicos e retornar ao plano espiritual onde reside “o verdadeiro deus” gnóstico, conhecido por muitas comunidades gnósticas através da sigla IAO.

Sob o ponto de vista gnóstico, se o mundo físico é imperfeito, ele o é porque foi criado por uma entidade também imperfeita (motivo pelo qual é conhecida como “Demiurgo”, que significa “meio construtor”). No mundo físico nada é eterno, e tudo está sujeito a um ciclo de nascimento, crescimento, queda, morte e renascimento. Esse ciclo é controlado pelo Demiurgo e mantém o ser humano preso numa “roda de sofrimento incessante”. Por isso, a primeira grande missão gnóstica é tornar o homem consciente de seu estado de prisão, para que inicie sua jornada de libertação.

Esse raciocínio gnóstico é essencialmente herético, haja vista não encontrar eco em nenhum aspecto teológico do Cristianismo. Pior que isso: em suas próprias palavras, Cristo nos deixa claro que Ele e o Pai “são um só”, e que o Pai Eterno criou o mundo tal qual existe, já que nada ocorre na Criação sem que Deus assim o saiba, pois Ele dá conta “de qualquer fio de cabelo que nasce ou cai do homem”.

O raciocínio gnóstico de que o “verdadeiro deus” está além desse mundo, e de que toda a Criação foi feita por uma divindade “menor, arrogante e iludida”, cria uma contradição para a própria filosofia gnóstica. Isso ocorre porque como o Gnosticismo não se apresentava como uma religião e sim como uma filosofia espiritual (que se expandia através do sincretismo com elementos de outras religiões e filosofias já estabelecidas, de forma muitas vezes incoerente), defender a existência de duas divindades para justificar os problemas do mundo é simplesmente negar a teologia judaico-cristã, formada por duas religiões (com as quais o Gnosticismo procurou se sincretizar!) que tem por base a premissa única de que Deus-Pai é um só, e é o criador do mundo e de tudo enquanto existe nele.

Essa visão de mundo e da divindade (cosmologia) frequentemente faz com que o pessimismo do Gnosticismo fique visível em seu discurso, e seja considerado uma de suas características principais. Para o gnóstico a visão cosmológica cristã culpa o ser humano por seu sofrimento, e é uma “estratégia do Demiurgo” para prender ainda mais o ser humano ao plano físico, o “convencendo de seus erros”. Segundo Hoeller (2005), “a maioria dos seres humanos possui uma forte necessidade psicológica de perceber a vida como benigna em algum sentido e potencialmente feliz” (HOELLER, 2005, p.29). E isso ocorre porque Deus colocou no homem parte de sua própria essência no ato da Criação (quando esta ainda tinha um estado de perfeição que não se comparar ao estado decaído em que o homem se encontra agora).

O que o Gnosticismo tenta é assustar o ser humano tornando a Criação algo também “assustador”, na tentativa de retirar toda a esperança dos homens em Deus e em sua Criação, que mesmo em estado decaído pode ser utilizada como primeiro estágio de retorno do ser humano a seu estado de condição divina (AQUINO,2001).

Aos olhos do cristão, este mundo não é sua casa; porém, por mais que não seja a morada eterna prometida por Cristo, o mundo é o local onde a transformação do ser humano deve ser iniciada. E essa transformação deve ser feita não negando-se a Criação e a vida, mas (como disse São Paulo), “estando-se no mundo, vivendo-se nele da melhor forma possível, mas não sendo deste mundo”. Assim, o cristão sempre tende a querer enxergar “algo de bom em tudo” (mesmo que essa bondade seja apenas aparente).

Já para o gnóstico, a bondade desse mundo não tem valor porque é passageira, e sendo assim, não há sentido em se ter Fé e esperança em algo passageiro. Porém, isso não significa dizer que o gnóstico não pratique a caridade; pelo contrário: ele pode eventualmente praticar atos caridosos (como uma forma de demonstrar piedade, assim como cristão), mas a forma como encara a prática da caridade é diferente: ele não se deixa guiar pelo sentimento de que “sempre deve ajudar os mais necessitados”. Para um gnóstico, a melhor ajuda que alguém pode dar à outra pessoa é mostrar-lhe a chave para sua própria “libertação do sofrimento” (ao invés de sempre ser caridoso ou bondoso, o que para o gnóstico equivaleria a manter o semelhante no sofrimento e na dependência de ajuda alheia).

A negação da Criação fazia com que algumas comunidades gnósticas da antiguidade rejeitassem até mesmo a vida (isso mesmo, a geração de vida!): algumas comunidades que adotavam o Gnosticismo como religião, proibiam seus iniciados (os “perfeitos”) de terem filhos, sob a alegação de que gerar filhos seria uma forma de “perpetuar a criação do Demiurgo” e de “manter o cativeiro espiritual do ser humano”. De acordo com Agostinho (1996) era comum até mesmo que a prática do aborto fosse realizada por mulheres adeptas da filosofia gnóstica, que acreditavam estar fazendo algo “benéfico” espiritualmente aos fetos (e a si mesmas!). Obviamente, muitas vezes esse tipo de prática terminava por causar também a morte das próprias mães (algo que aparentemente não incomodava os gnósticos, uma vez que a morte representava pra eles a possibilidade concreta de “libertação deste mundo”).

Todavia, apesar de ter uma visão herética e tenebrosa contra os preceitos cristãos, não é apenas o pessimismo e torno da Criação que faz do Gnosticismo um inimigo teológico concreto do Cristianismo. Outros três fatores fazem com que a Igreja Católica de Roma considere o Gnosticismo como uma das maiores heresias à cristandade (ao lado do protestantismo):

1º fator: A “deturpação” dos conceitos cristãos: a grande “ligação” e mistura de conceitos que o Gnosticismo promoveu com o Cristianismo nos séculos I, II e III fez com que muitos “conceitos cristãos” fossem “deturpados” pela visão gnóstica de mundo. Isso fez com que muitos cristãos (que na época não possuíam um corpo doutrinário coeso e definido) cometessem erros doutrinais e filosóficos, confundindo o Cristianismo com o Gnosticismo;

2º fator: A ausência de intermediários: o egoísmo gnóstico se expressa de forma mais visível em sua ansiedade por estimular experiências espirituais solitárias, sem que a coletivização dessa experiência gere um sentimento de piedade e caridade (como ocorre no Cristianismo). Assim, a “ausência de intermediários” pregada pelo Gnosticismo busca no fundo descentralizar a influência judaico-cristã dentro da Tradição Espiritual Ocidental, se opondo especialmente à Santa Madre Igreja Romana, em prol de uma pretensa “gnose” pessoal que não teria ajuda “de nada deste mundo”;

Para o Catolicismo Apostólico Romano (pertencente ao pilar judaico-cristão da Tradição Ocidental), o Gnosticismo é um inimigo doutrinal e teológico tão perigoso quanto o protestantismo, representando um perigo real a todos os cristãos verdadeiros, pois subverte os dogmas cristãos, confunde os estudantes sinceros e descentraliza as práticas espirituais dos buscadores em nome de um humanismo egoísta.

3º fator: A presença de uma divindade distante e fria: para o Catolicismo, Deus é uma divindade pessoal, que mantém contato com o ser humano e demonstra por ele piedade e compaixão (AGOSTINHO, 1996). Porém, para o Gnosticismo, o “verdadeiro deus” é uma divindade impessoal, fria e distante, que não se mistura com os assuntos deste mundo.

Para o Cristianismo, o sofrimento do ser humano também faz Deus sofrer, pois não foi isso que Ele planejou ao homem quando do momento de sua Criação. Deus não quer que seus filhos sofram e isso o transforma quase “em outra pessoa”. Assim, a ideia gnóstica de que Deus está “além deste mundo” e de que este mundo é governado por uma divindade “menor” e maléfica é um absurdo do ponto de vista teológico cristão.

Conclusão: vale a pena realmente estudar Gnosticismo?

Com base em tudo que analisamos neste artigo sob o Gnosticismo, a resposta a esse questionamento é simples: depende do objetivo que você tiver, ao estudar a filosofia gnóstica.

Mesmo com graves erros doutrinais, e com posicionamentos claramente heréticos,estudar o Gnosticismo pode ser uma oportunidade ímpar a todos aqueles que desejam se aprofundar nos estudos da Tradição Espiritual Ocidental…por um motivo simples: o Gnosticismo sincretizou (de maneira muitas vezes pouco ética) elementos de diversas religiões já consolidadas no Ocidente, nos séculos II e III da Era cristã. Por isso, estudar a filosofia gnóstica pode dar ao buscador, uma senso teológico apurado e fazê-lo entender como os adversários teológicos e filosóficos do Cristianismo utilizam suas estratégias de enfrentamento à doutrina de Cristo.

O Gnosticismo não pode ser considerado somente uma religião (porque conviveu abertamente com outras religiões) ou mesmo uma simples filosofia (porque em algumas comunidades da antiguidade ele desempenhava o próprio papel de religião, ou já haviam outras correntes filosóficas em ação). O Gnosticismo é ao mesmo tempo religião e filosofia, pois conviveu abertamente com outras religiões, se aproveitando da popularidade delas pra divulgar (de forma muitas vezes “secreta”) seus “ensinamentos”.

Todavia, se o objetivo do estudante for aderir religiosamente ao Gnosticismo (através de alguma instituição iniciática moderna), este estudo passa a não ser recomendável. Por mais que a Tradição Ocidental tenha inúmeros exemplos de ideias com clara influência gnóstica, isso não significa que os buscadores sinceros devam aderir a essa filosofia herética de forma religiosa (especialmente se o buscador for cristão, já que o Gnosticismo choca-se diametralmente à Teologia cristã).

Estudar um adversário teológico/filosófico vale a pena para conhecer as estratégias deste importante adversário cristão. Este é sem dúvida um estudo árduo, muitas vezes confuso, e absolutamente necessário a todos aqueles que desejam se aprofundar na Tradição Ocidental. Todavia, estudar uma vertente como o Gnosticismo visando a adesão religiosa a ela, é uma decisão grave (mas que está à disposição de qualquer um, a partir da efetividade do conceito de livre-arbítrio, tão defendido no Cristianismo).

O Gnosticismo é descentralizado (do ponto de vista religioso), e suas manifestações na antiguidade tomaram vários formatos diferentes (assim como o Hinduísmo toma na atualidade). O próprio termo “gnóstico” não tinha o caráter que tem atualmente, e o sincretismo que foi feito entre o Gnosticismo e as diversas correntes espirituais e filosóficas dos primeiros séculos, fez com que não se haja um conceito unificado do que significa ser “gnóstico”.

Outro ponto a se considerar é que como religião, o Gnosticismo é confuso e sem respaldo teológico e litúrgico a seus adeptos. Isso acontece por conta da desvalorização que os gnósticos faziam da Liturgia e da Teologia (enquanto áreas de aprofundamento cristão). Isso pode fazer com que nem todos os estudantes de Esoterismo Moderno que procuram o estudo do Gnosticismo “curiosos” por algo novo e “anti-cristão”, realmente suportem as ideias relativizadas e pessimistas propagadas na filosofia gnóstica. Na verdade, pouquíssimos desses “curiosos” realmente as suportam: no Brasil, enquanto muitas Ordens iniciáticas se dizem “gnósticas”, muitos estudantes insistem em querer estudar Gnosticismo mas não toleram conceitos gnósticos como “desprendimento”, e “recusa à vida”.

Assim, enquanto o Gnosticismo prega que o ser humano deve “se libertar das algemas desse mundo” e rejeitar tudo que estiver relacionado ao plano físico (inclusive o “ocultismo” dos séculos 19 e 20, típico do Esoterismo Moderno!), os estudantes brasileiros de esoterismo preferem “praticar de tudo um pouco”, e estudar Gnosticismo “aos poucos”, através de “pura curiosidade”, sem abrir mão do estudo de magia. Falando de forma simples: o Gnosticismo não é uma filosofia espiritual confiável; e soa como algo “rígido e pessimista demais” à grande parte dos buscadores da atualidade, que o buscam por mera curiosidade mas não querem seguir toda a filosofia gnóstica “à risca”.

O renascimento do interesse pelo Gnosticismo a partir do século 19, fez com que um grande número de “Ordens gnósticas” surgisse ao redor do mundo. Diversos movimentos esotéricos passaram a adotar o termo “gnóstico”, caracterizando o que pode ser classificado como o “Neo-Gnosticismo”. Nem sempre as Ordens Neo-Gnósticas parecem ter ligação aparente com a filosofia gnóstica dos séculos II ou III (ou com alguma corrente gnóstica clássica); outras vezes, a ligação é mais recente e já caracteriza outras reformulações filosóficas e espirituais. O Brasil possui representações conhecidas de instituições espiritualistas que se classificam como “gnósticas”, a exemplo do movimento gnóstico samaeliano (representado pelas diversas instituições que caracterizam essa vertente gnóstica), e a Escola Internacional da Rosacruz Áurea (ou Lectorium Rosicrucianum), a única instituição rosacruz da modernidade a adotar um sistema iniciático completamente gnóstico.

O Gnosticismo é uma vertente espiritual confusa, e não recomendada a cristãos, fazendo uso de uma cosmologia diferente, e podendo tornar-se até mesmo um “fardo” pra todos que o buscam sem saber o que estão abordando…

Ao estudante sincero da Tradição Espiritual Ocidental, que deseja fazer pesquisas sobre Gnosticismo, fica a dica: não se iluda. O Gnosticismo não é uma via espiritual recomendável a quem é cristão, ou mesmo a quem busca aprofundar estudos na Tradição do Ocidente. Trata-se de uma filosofia “colcha de retalhos”, espiritualmente pessimista, com conceitos aparentemente “profundos” e rígidos, mas com pouca teologia própria e quase nenhuma Liturgia que ofereça a seus pesquisadores uma base de práticas coesa. Além disso, o Gnosticismo tem uma visão cosmológica que pode ser considerada “dura”, se comparada às visões otimistas e “felizes” dos movimentos espirituais da Nova Era.

Saiba bem o que você quer obter do Gnosticismo, caro leitor, e saiba também o que irá encontrar em sua busca. Não se estuda nada “por curiosidade”…e em se tratando de Gnosticismo, essa frase ganha ainda mais veracidade. Não perca o seu tempo estudando aquilo que não pretende aderir (ou que nem vale a pena ser aderido); da mesma forma, não faça instituições iniciáticas (por piores que sejam) perderem tempo com seu interesse passageiro ou superficial.

Se sua decisão for realmente estudar a filosofia gnóstica, estude o Gnosticismo pelo que é: uma heresia anti-cristã. A partir desta constatação, faça comparações constantes entre as interpretações gnósticas (confusas e relativizantes) e a Liturgia e a Teologia cristã. Faça deste estudo um fortalecimento de sua própria Apologética (capacidade de defender a Fé cristã através do uso da lógica).

Leia bastante; pesquise; se informe. Como diria um célebre ditado popular: “quem não sabe o que busca, não identifica o que acha”.

REFERÊNCIAS:

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Editora Nova Cultural. São Paulo: 1996.

AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica: Vol. 1. Edições Loyola. Rio de Janeiro: 2001.

HOELLER, Stephan. Gnosticismo: uma nova interpretação da tradição oculta para os tempos modernos. Editora Record: Nova Era. Rio de Janeiro: 2005.

PAGELS, Elaine. The gnostic gospels. Random House. Nova York: 1978.

Frater M.F

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